Quinta-feira, Maio 24, 2012

Resenha da música “Alguns versículos bíblicos” da Sociedade Anónima


Por Magus DeLírio aka Emílio Cossa

Música: Alguns versículos bíblicos
Artista: Sociedade Anónima
Produção:

A Bíblia Sagrada não é, como muitos pensam, o livro mais antigo do mundo mas é, com certeza, embora seja o mais complexo, o mais lido e o mais influente. Do Génesis até ao Apocalipse, encontram-se relatos em que o Bem, simbolizado por Deus, encontra-se em constante luta contra o Mal, simbolizado por Satanás. Na maior parte das vezes as lutas terminam com o Bem a vencer o Mal. Portanto, de uma forma geral, pode-se dizer que a Bíblia é um livro cuja essência é servir o Bem para vencer o Mal. Infelizmente, nem sempre as coisas funcionam assim, muitas são as vezes em que a Bíblia é usada a serviço do Mal e detrimento do Bem. Há 500 anos, por exemplo, os europeus usaram-na para converter os africanos e assim facilitar a escravatura, na Alemanha Nazista, entre 1933 a 1945, Adolf Hitler e seus seguidores usaram-na para fundamentar a perseguição aos judeus. Na actualidade em alguns países ainda é utilizada para justificar a pena de morte, e em outros, vezes sem conta, é usada por muitas igrejas como forma de enriquecer fácil e rapidamente.

É pois, este lado escuro da Bíblia Sagrada que é retratado no tema “Alguns versículos bíblicos” do grupo Sociedade Anónima os simplesmente SA, constituído por Chaminé e Fóssil, que em 2010 foi laureado pelo Hip-Hop Time com o prémio Melhor Grupo Underground.    

Neste tema extremamente complexo, o SA mostra do que “alguns versículos bíblicos” são capazes. Revela-se, por exemplo, que estes versículos são usados como combustível para o fanatismo. Revela-se também como pessoas motivadas pelo desespero buscam alento em algumas igrejas, igrejas em que, por sua vez, seus pastores hipócritas, nada mais fazem do que usar a bíblia para extorquir essas pessoas. Revela-se, também neste tema, como alguns líderes religiosos usam a sua posição para assediar sexualmente as crentes, muitas das quais de menor idade. E as revelações não ficam por ai, o grupo vai mais longe e declara que a proliferação de igrejas, seitas e profetas, só aumenta as trevas e não a luz como era de se esperar.

Alguns versículos bíblicos são, ainda segundo este tema, “como estímulo para depositarmos nossos ínfimos salários mínimos como dízimos nas missas de Domingo”. Ainda através desses versículos “a malícia e a degradação tomam o lugar do amor de Deus, pois seu amor transformou-se em prazer sem consciência, onde o sexo e a violência excitam ate aqueles que se dizem ser devotos a Deus”.

Enfim, “Alguns versículos bíblicos” é um manifesto de como a Palavra de Deus tem sido manipulada pelas emergentes igrejas evangélicas, sobretudo brasileiras, que se multiplicam cada vez mais e cada vez mais tomam de assalto os canais de rádio e televisão, as páginas de revistas e jornais, sob o pretexto de anunciarem a Palavra de Deus quando na verdade tudo o que querem é usar a fragilidade dos seus crente para acumularem divisas e satisfazer seus prazeres pessoais.

*In Clássico Hip-Hop Time, Cidade FM - 97.90 MHz, 20/05/2012 

Terça-feira, Maio 15, 2012

Resenha da música ‘Chuva passageira’ de Naum



 Por Magus DeLírio aka Emílio Cossa

Música: Chuva passageira
Artista: Naum
Produção: Tuche

Falar do que os MCs deveriam ou não deveriam fazer tem sido um assunto recorrente no seio do Rap nacional. Pela quantidade quase que exagerada de canções que abordam esta questão, pode-se afirmar com alguma segurança que todos MCs nacionais tem pelo menos uma música em que fazem de si mesmos, os donos da razão e dos outros, MCs que só repam por emoção. Uma vez que este papo tem se repetido vezes sem conta esse tipo de música já vem se tornando tanto repetitivo quanto aborrecido. Felizmente esse não é o caso de Naum, rapper que em “Chuva passageira”, por sinal sua música de maior destaque, aborda o assunto de uma maneira interessante e criativa.  

Naum, rapper cujo nome significa “Consolo” e nos remete ao profeta bíblico de mesmo nome que em seu livro profetizava a destruição do Império Assírio o mais cruel, temido e odiado povo do Mundo Antigo, neste seu tema, faz jus ao seu nome e profetiza a eminente queda de todos aqueles MCs que por vários motivos corrompem a cultura Hip-Hop.

Neste beat fantasticamente produzido por Tuche, Naum compara essa nova onda de MCs a uma chuva passageira que aparece sem mais nem menos, e como não poderia deixar de ser, causa alguma constipação e de seguida desaparece. Isto acontece, segundo Naum, porque esses sujeitos, de um dia para outro, decidem entrar para o Hip-Hop sem antes procurar saber da essência desta cultura que é no final das contas, ainda segundo Naum, uma ciência que precisa ser estudada.  

Ainda que não cite nomes, Naum deixa bem claro quem são os seus alvos. Quando, por exemplo, nas suas rimas conta que “Naufragaram muitos reis numa canoa/ Que diziam ser os donos da tal coroa” ou ainda “Alguns desses MCs repam pela fama/ Outros sonham em comprar o Hotel Polana” fica bem evidente que se refere àqueles que uma vez afirmaram que “A coroa é nossa” ou “X hoje está com gana de (…) comprar o Hotel Polana”, e com isso conseguiram muita fama mas que com o tempo, como diria um certo apresentador, acabaram batendo na rocha.     

Porém, para que essa sua atitude não seja mal interpretada e acabe sendo vista como uma provocação, Naum deixa também bem claro que não tem nenhuma intenção de criar bifes pois o que quer é “paz em todo lado”. A intenção é sim, apelar a todos MCs para que se libertem das algemas do dinheiro e reflictam sobre a sua atitude em relação à Cultura Hip-Hop.

Oxalá a mensagem chegue ao destino!

*In Clássico Hip-Hop Time, Cidade FM - 97.90 MHz, 13/05/2012  

Segunda-feira, Abril 30, 2012

Resenha do álbum “O convite” de Iveth



Iveth – O Convite
Ano: 2010
Género: Hip Hop
Edição: Cotonete Records

Intro:

A palavra RAP significa Rythm And Poetry, ou seja Ritmo e Poesia. Porém, nos dias que correm, no jogo do RAP há muito bom ritmo e pouca (ou mesmo nenhuma) poesia. Há cada vez mais um grande desfasamento entre a qualidade das instrumentais e a qualidade das letras. É como se os rappers sofressem duma amnésia colectiva que os tivesse limpado do cérebro o significado dessa palavra, ou pior, é como se alguns nunca tivessem sabido o seu real significado, como se se associassem para aos poucos assasinarem o RAP. E a continuarmos assim, não nos espantemos se ao passearmos por um cemintério qualquer vermos uma lápide com a seguinte inscrição: “Aqui jaz o RAP”. Se isso vier a acontecer, não procurem Iveth para acusá-la desse crime, pois ela, certamente, sairá inocente, e se provas lhe forem pedidas bastar-lhe-á apresentar “O Convite” - um álbum que para além trazer ritmos trabalhados até ao mínimo detalhe, trás também poesia sufisticada e muito acima da média.

Resenha:

Aproximadamente um  ano após  o lançamento do single de avanço “Amiga”, a repista jurista Ivete Mafundza ou simplesmete Iveth trouxe-nos o álbum “O convite”, o primeiro de sua carreira e por sinal o primeiro álbum de Hip-Hop Moçambicano pertencente a uma mulher.   Um ano depois, aproveitando a boleia das festividades do mês da Mulher Moçambicana que este Abril se celebram, trazemos esta mais do que adiada resenha.

Composto por 20 temas, dois quais, um intro e três interlúdios, este debut conta com a produção de Scam, 7Kruzes, Proofless, Lams, Gringo, Mastah Oz, Singah e Fechadura e ainda com as prestações vocais de Miguel Xabindza, Sgee, Simba, Bakha, Sick Brain, Henv, Azagaia, Jutty, Mimãe e TJ, Rage e Izlo H.

O álbum abre com o convinte feito em dose dupla feito primeiro através do “Intro” que é na verdade um arrebatador poema declamado por Rage, este rapper da Cotonete Records que já foi classificado pelo seu ex-colega Azagaia como um verdadeiro “fenómeno” e a seguir o Rap que dá título ao álbum.
Ao álbum propriamente dito entra-se através do tem “Longa caminhada”, uma narrativa autobiográfica em que Iveth mostra o seu seu percurso desde o momento primeiro que decidiu enveredar pelo duro caminho do Hip-Hop até aos dias de hoje. De seguida a biografia cede espaço ao lado romântico da rapper que em “4 estações do amor”, já revisto no SangueMoz, mostra-nos de forma metafórica o ciclo de vida do amor, num tema produzido por Proofless usando o sample do clássico “Lately” de Stevie Wonder, lado romântico que volta mais tarde em “Fala”, em que Iveth contando com a cumplicidade de Miguel Xabindza literalmente insiste na necessidade do diálogo nas relações conjugais e em “Rosa Ana Paulina” onde a rapper, também metaforicamente, revela todo seu amor pelo Rap, que aqui é retratado como se de uma mulher se tratasse.
A Afrocentricidade, que já foi motivo de análise da nossa parte, encontra também espaço também neste álbum e é rigorosamente explorada em “Afro” com Mimãe e de forma subjectiva em “Depois não digam que eu não disse” e “O sol brilha para todos nós”. A morte também visita o álbum via “O corredor da morte” e “VenSIDA”, que com o gospel “Amém” tecem a rede dos temas mais tristes do álbum, felizmente contrapostos por “Erga-te e seja feliz (Remix)” e “Cotonetem-se”, que são sem sombras de dúvidas as mais alegres.
Mas é, com certeza a questão da Mulher o tema central desta obra, aliás, Iveth, que para além de ser repista é também jurista, em muitas interveções já deixou claro o seu comprometimento com a luta pela sua emancipação da Mulher face à violência e discriminação perpetradas pelo Homem, tendo inclusive contribuído através de artigos científicos em prol dessa causa. Musicalmente essa causa encontra-se patente em quase todos temas mas é  em “Mulher heroína” e “Amiga” onde Iveth vai ao fundo da questão.
Na falta de uma palavra final para fechar a resenha nada mais posso fazer a não ser concordar com esta talentosa menina quando diz: “É um convinte à mudança/ é um voto de esperança/ do mais idoso à criança” pois não há como ouvirmos “O convite” e continuarmos os mesmos.

Lista de músicas:
  1. Intro “O convite” com Rage (prod. Scam)
  2. Convite (prod. Scam)
  3. Longa caminhada (prod. 7Kruzes)
  4. 4 estações do amor (prod. Proofless)
  5. Afro com Mimãe (Lams)
  6. 60 segundos Parte 01 (prod. Lams)
  7. Fala com Miguel Xabindza (prod. 7Kruzes)
  8. Erga-te e seja feliz (Remix) com Sgee, Simba & Bakha (prod. Gringo)
  9. Depois não digam que eu não disse (prod 7Kruzes)
  10. Dia lindo com Bakha (prod. Proofless)
  11. O sol brilha para todos nós (prod. Mastah Oz)
  12. 60 segundos Parte 02 (prod. Lams)
  13. O corredor da morte (prod. 7Kruzes)
  14. VenSIDA com Sick Brain, Henv, Azagaia & Bakha (prod. Singah)
  15. Mulher heroína (prod. 7 Kruzes)
  16. Amém com Jutty, Mimãe & TJ (Proofless)
  17. Amiga com Jutty & Mimãe (prod. Mastah Oz)
  18. Rosa Ana Paulina (prod. Fechadura)
  19. 60 segundos Parte 03 (prod. Lams)
  20. Cotonetem-se com Rage & Izlo H (prod. 7Kruzes)

Classificação: 8/10

Favorita: “Fala” com Miguel Xabindza

Sábado, Abril 21, 2012

Resenha da música ‘Moçambique’ de Black Force


Por Magus DeLírio*

Música: Moçambique [BAIXAR]
Artista: Black Force c/ Leonel
Produção: 9B
Álbum: A Voz do Povo

Pelo tempo que iniciou a sua divulgação, o lançamento do álbum “A Voz do Povo”, o próximo, ou melhor, o primeiro do grupo Black Force, do qual fazem parte os rappers Kay Real e G-Fly, já está a tardar mas, com certeza, não irá falhar. Pelo menos a julgar pelos singles que, progressivamente, vão saindo, e massivamente, sendo distribuídos de mão em mão e através da Internet, “A Voz do Povo” é um daqueles álbuns que já nasce ‘condenado’ ao sucesso.

‘Moçambique’, o mais recente dos (três?) singles já lançados, é já uma prova irrefutável desse sucesso. Contando com 9B na produção e Leonel nos coros, este tema é uma espécie de revisão da história do nosso povo onde sobressaem factos como a exploração colonial, a guerra civil, as cheias do ano 2000, a explosão do paiol e a xenofobia sofrida pelos moçambicanos na África do Sul. Fala-se também, neste tema, do Imperialismo que nos explorou outrora e do Capitalismo que nos explora agora, da pobreza e da fome, da alienação cultural e da segregação racial.

Para além do que se fala, é também interessante observar a maneira como se fala. Pois, reconhece-se nesta música o resgate do amor pela pátria, tema que marcou, sobremaneira, a nossa poesia na era do despontar do Nacionalismo. A utilização da frase “Surge et ambula”, que traduzida para o português quer dizer “levanta-te e anda”, denuncia a relação de intertextualidade existente entre o poema de Kay Real e G-Fly e o poema de Rui de Noronha, um dos ícones da nossa poesia, e por esta via deixa-se também patente a intenção de actualizar o apelo secular para que Moçambique e o resto da África despertem do sono infindo em que se encontram.

Não fossem alguns erros linguísticos cometidos pelo corista Leonel, “Moçambique” seria um tema excepcional. Foi bonita a intenção dos rappers de utilizar as línguas nacionais, para os que pouco entendem destas línguas diria até que foi uma excelente ideia, mas para os que entendem um pouco mais e que têm amor e respeito por elas, pode-se dizer que o tiro saiu pela culatra e ficou-se apenas na intenção. Devo confessar que é uma experiência dolorosa ouvir esta parte da música, principalmente o fecho. Era bom que antes de ir ao estúdio, os nossos artistas (não exactamente os Black Force) humilde e pacientemente procurassem amigos mais abalizados na matéria para fazer uma pequena revisão linguística, assim poderia se evitar muitos dos atropelos cometidos sobretudo pela dita nova geração de artistas moçambicanos, que mesmo que a língua seja do seu domínio por motivos que eu não saberia explicar fazem questão de errar propositadamente.

Seja como for, “Moçambique” não deixa de ser o belo tema que é, tanto pelo ritmo e muito mais ainda pela poesia.

Bem-haja Black Force!

*In Clássico Hip-Hop Time, Cidade FM 97.90 MHz, 15/04/2012   

Terça-feira, Fevereiro 28, 2012

Chuvas de Deus, Cheias do Diabo*


Hoje venho semear dúvidas sem, no entanto, esperar colher alguma certeza, pois no campo das doutrinas religiosas os canteiros mais férteis estão mais dogmas que para evidências.
Quando Moçambique foi assolado pelas cheias do ano 2000, não houve faixa da sociedade que tenha ficado indiferente. Houve nesse ano, no nosso país, um movimento solidário sem precedentes. Na área da música, em particular, as cheias não só estimularam a solidariedade como também a criatividade. Foi por essas alturas que, só a título de exemplo, foi lançada a colectânea “Mozambique Relief”, para mim a mais arrebatadora compilação de música moçambicana de sempre, foi também nesse contexto que nasceu o projecto Mabulo, grupo musical que juntava artistas da nova e velha geração, uma ideia pioneira que foi muito aclamada tanto cá em casa como lá fora.      

Os músicos Swit e Edú, também não escaparam a esta onda que arrastava tudo e todos. Lançaram nessa altura duas canções, provavelmente as melhores de suas carreiras, que tinham similaridades tão interessantes quanto impressionantes: os vídeos eram muito parecidos, ambos eram a preto e branco e, tanto numa como noutra, era apontado o provável responsável por aquela catástrofe.

Enquanto Swit cantava mais ou menos assim:
“ Se pelas chuvas nós perdemos
Tudo aquilo que tivemos
É porque quis o Senhor Divino
Assim traçar-nos o destino”

Edú também não ficava atrás, e cantava algo como:
“Aquelas chuvas tão cruéis
(Destroem tudo que a gente tem)
Trabalhamos dia e noite p’ra nada
É o Diabo a estragar
Estragando a minha Terra
Deus salve a minha Terra!”

Como dá para ver, para Swit o responsável pelas cheias foi Deus, isto é, as cheias aconteceram porque Deus assim o quis. Para Edú, porém, a culpa foi do Diabo, ou seja, foi o Diabo quem mandou as cheias com intenção de destruir a Terra. Mas cá entre nós, quem terá sido o real responsável? Deus ou Diabo?

Sobre Deus, para quem já leu Génesis e conhece a história da Arca de Noé, decerto se lembra que Ele uma vez se arrependeu de ter criado o Homem pois este, contra as Suas expectativas, havia se tornado muito violento. Então, mandou Deus uma grande chuva que, tendo caído durante quarenta dias e quarenta noites, inundou tudo e todos, excepto Noé, sua família, alguns animais e algumas plantas. Só que, depois desse extermínio, parece que Deus, uma vez mais, arrependeu-se e disse:

“Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice; nem tornarei mais a ferir todo vivente, como acabo de fazer.” (Génesis 8, 21)

No que toca ao Diabo, não tenho matéria nem para incriminá-lo nem para defende-lo, embora seja de praxe a ele atribuir todas acções maldosas. Logo, o impasse se mantém:

Serão as cheias coisa de Deus ou do Diabo?

*Título inspirado no título da obra “Venenos de Deus, Remédios do Diabo” do escritor moçambicano Mia Couto.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

Imagem da mulher no Hip-Hop Moçambicano (3): A Imagem Mulher-Cara-Metade


Já lá vão uns bons ‘mesitos’ que apresentamos a Imagem Mulher-Caça-Tesouros, confira aqui, uma das oito imagens da mulher, apresentadas pelo investigador Estêvão J. Filimão no seu artigo “Imagem da mulher nas canções da música urbana na Beira (1975 - 1989)” e como prometemos cá estamos de volta para dar continuidade à nossa reflexão, que desta feita irá incidir sobre a segunda imagem, isto é, a Imagem Mulher-Cara-Metade. Cá vamos nós!

Segundo Filimão, esta imagem
“É caracterizada essencialmente pelas seguintes categorias de elementos: a exigência de busca ou procura que faz nascer no outro parceiro ou admirador; a referência ao termo amor (…) engendrando a ânsia de encontro com a pessoa visada; os termos esperar, confiar, preservar, saudades, distância, presença, promessa, namorada e os demais que possam ser empregues para traduzir este sentimento forte e, por vezes, violento que é a intolerância com que se suporta a ausência da pessoa amada.” [1]

Aqui, embora a definição tenha sido, uma vez mais, muito clara, não iremos resistir à tentação de torná-la mais clara ainda. Para tal, iremos buscar o curioso conceito de alma gémea, que muitas vezes se confunde com cara-metade. Em relação a este, os espíritas

“Dizem que Deus, ao criar cada alma deu-lhe uma forma arredondada - uma esfera. Seguidamente, cortou-a em duas metades e colocou cada uma num  corpo diferente. A alma gémea não é mais do que a nossa outra metade perdida e todos quantos a buscarem encontrá-la-ão. Cada alma tem por missão descobrir a metade que lhe falta – a sua alma gémea. O primeiro passo a dar é acreditar na sua existência.” [2]

Agora sim, sentimos que chegamos lá, ou se não, pelo menos não estamos muito longe disso. Entretanto, seguindo à risca os conceitos ora apresentados, fica desde já clarividente a dificuldade com que esta imagem poderá ser encontrada no seio do Hip-Hop, e para os leitores mais atentos, evidente também fica o motivo de tanta demora na publicação deste texto. Isto acontece porque, segundo referimos no número anterior, o Hip-Hop é um jogo muito machista, tanto que os jogadores mais radicais não ousam se aventurar para o lado romântico da coisa, nem tão pouco admitem que os outros o façam, pois tal atitude iria, certamente, deixá-los cair em descrédito, ou seja, comprometer a sua masculinidade. Neste jogo, lançar uma ‘música romântica’ para posteriormente provar que continuas sendo um rapper verdadeiro é tão difícil quanto provar que continuas sendo viril depois de admitir que foste castrado.  
   
Assim sendo, o que muitos rappers acabam fazendo, é sim serem românticos mas tendo sempre o cuidado de deixar bem claro, nas suas letras, o seu tão idolatrado lado macho, conforme verificou o articulista norte-americano Nathaniel no artigo “ Hip-Hop Love Songs and the Construction of Socially-Acceptable Urban Identities”[3]
A seguir iremos apresentar alguns casos, alguns deles bastante caricatos, outros nem por isso:
Iremos começar pelo rapper Mc Roger (niggas não me apedrejem, tenho muitos anos nesta estrada e sei muito bem do que estou a falar). Pois é, no seu hit “Baby boo” (com Mr Arssen e Doppaz) Mc começa por se humilhar diante da sua cara-metade:

 “Estou a ser verdadeiro
 Um bom guerreiro
 Baby por ti sou fachineiro”

Mas sem perder tempo, no verso seguinte se exalta:

“Aproveite agora que o Mc tá na área
 Pois camarão que dorme a onda leva
 Word up!”

Sem comentários, vamos continuar…

Três Agah, rapper da G Pro, na música “My Queen” expõe em seus versos alguns dos exemplos mais felizes da presença desta imagem, primeiro com a ajuda imprescindível de G2:
“Me sinto um homem completo
Só contigo do meu lado girl”

E depois por conta própria:

“Eu e tu tipo cola tudo
 Eu e tu tipo banda e número
Nós dois juntos
Cara e coroa”

Mas logo mais tarde se apercebe que foi ‘fraco’ e decide ‘lavar a sua honra’:

“Eu sou Três Poderoso-Nas-Pitas”

Rage, da Cotonete Cotenete em “Tu não vês” também alinha pelo mesmo diapasão:

“Ele é um manda chuva
 Anéis de ouro na mão
 Compra-te tudo mas não te pode comprar o coração
 Eu não sou o Super-Homem
 Nem tenho foguetão
 Para te levar à Lua só preciso dum colchão”  

Aqui Rage foi forte em quase toda estrofe pois ganha coragem e confessa sua pobreza diante da pessoa amada e mais, mostra que o amor está acima dos bens materiais mas, como os outros, peca pela obsessão em defender a sua masculinidade quando no último verso, o tal do punchline, denuncia que o que mais confia é o seu membro viril. 
Ia também falar de Yazalde Yazalde aka Y-Not mas acho que vale a pena poupar palavras e referir apenas que a música mais romântica deste rapper, por sinal a única, tem como título:

 “Para não dizerem que não falei de amor”.

De tudo que ouvi, o único que não me pareceu muito preocupado em ‘se fazer’ de forte foi o rapper Duas Caras em “Sms”:

“Confesso que me achava duro
 Mas acho que me enganei fofa
 Desta vez o boy caiu do muro”

Enfim são tantos os exemplos em que a Imagem Mulher-Cara-Metade está patente no seio do Hip-Hop Moçambicano. Entretanto, esta imagem apresenta-se quase sempre contaminada pela preocupação que os rappers têm de manter ou construir aquilo que Nathaniel chama de “Identidade Urbana Socialmente Aceitável”. Isto acontece porque, historicamente, o Hip-Hop foi sempre um movimento dominado pelo sexo masculino. O facto de este movimento constituir o reflexo da luta pela sobrevivência no meio urbano, forçou os seus membros a manter um nível de masculinidade para serem aceites em suas comunidades. Paralelamente a este facto, esta tendência denuncia também a sociedade machista em que vivemos, uma sociedade em que embora a Mulher esteja a ganhar cada vez mais espaço na luta pela sua emancipação, as relações de poder continuam ainda sendo dominadas e determinadas pelo Homem.
 
Referências Bibliográficas:
[1] Afonso, A. E. S. (Coordenação). Eu Mulher em Moçambique. Maputo: CNUM/AEMO, 1994.


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